Cristianismo Básico (Parte 2)
No capítulo 6, “As Conseqüências do Pecado”, John Stott ressalta que é mais fácil compreender as terríveis conseqüências do pecado se observássemos seus efeitos em Deus, em nós mesmos e no nosso próximo. O resultado mais terrível do pecado é a nossa separação de Deus. O pecado não somente separa; ele escraviza. Além de nos afastar de Deus, ele também nos mantém cativos. Na verdade, os pecados que cometemos são manifestações exteriores e visíveis de uma enfermidade interior e invisível, são os sintomas de uma doença moral. Como o pecado é uma corrupção interna da natureza humana, ele nos mantém escravizado. Não são alguns atos ou hábitos que nos escravizam, mas sim a infecção maligna de onde eles procedem. Regras de conduta não resolvem o nosso problema; não podemos cumpri-las. Mesmo que Deus nos diga claramente para não fazer alguma coisa, continuaremos fazendo até o final dos tempos. Sermões não adiantam; o que nós precisamos é de um Salvador. Mudar nossa mente através da educação não é suficiente, precisamos de uma mudança de coração. O homem precisa do poder espiritual para libertar-se de si mesmo e ajudá-lo a conquistar e controlar o seu eu. É necessário também considerar as conseqüências do pecado sobre os nossos relacionamentos. Nosso egoísmo nos faz entrar em conflito com outras pessoas. Se substituirmos nosso egoísmo por um espírito altruísta, nossos conflitos se resolverão. Esse espírito altruísta é o que a Bíblia chama de “amor”. Enquanto o pecado é possessivo, o amor é generoso. O pecado se caracteriza pelo desejo de ter; enquanto o amor está sempre pronto a dar. O que o homem necessita é de uma mudança radical de natureza, “trocar o eu pelo não-eu”. Mas ele não pode fazer isso através de suas próprias forças. Ele não consegue operar a si mesmo. Mais uma vez, ele precisa de um Salvador.
“A Obra de Cristo” é o título da Parte 3, composta pelos capítulos 7 e 8. O capítulo 7 aborda “A Morte de Cristo” e começa declarando que o cristianismo é uma religião de resgate e que Deus tomou a iniciativa através de Jesus Cristo, de libertar-nos dos nossos pecados. Uma vez o pecado acarreta três conseqüências principais, a salvação inclui a libertação de todas elas. Através de Jesus Cristo, podemos ser resgatados do exílio e conciliados com Deus; podemos nascer de novo, receber uma nova natureza, nos libertarmos da escravidão moral. No capítulo 7 Stott aborda o primeiro aspecto da salvação que é a reconciliação com Deus. Os outros aspectos da salvação (a libertação da escravidão do pecado e a restauração dos relacionamentos) são abordados no capítulo 8. Ressalta a importância da cruz fazendo um retrospecto ao sistema de sacrifícios do Antigo Testamento (ofertas queimadas e sangues de animais) e diz que Jesus reconhecia que as Escrituras testemunhavam a seu respeito e que nele as profecias seriam cumpridas; e dizendo que não há vitória sem a cruz e não há cristianismo sem a cruz e que a igreja tem reconhecido o ensino bíblico sobre a centralidade da cruz. Mas qual a o significado da cruz? Talvez nada seja mais contrário aos nossos instintos naturais do que a ordem para não resistir, suportar o sofrimento injusto e vencer o mal com o bem. A cruz, no entanto, nos ensina a aceitar a injúria, a amar o inimigo e a deixar o resto nas mãos de Deus e foi nela que Cristo nos Salvou, sofrendo e carregando sobre o madeiro os nossos pecados.
No capítulo 8, “A Salvação em Cristo”, Stott explana dois aspectos da salvação de Cristo, sendo por meio do seu Espírito e de sua igreja. A natureza humana pode ser mudada através da obra do Espírito Santo. O novo nascimento é um nascimento “do alto”. Nascer de novo é “nascer do Espírito”. O Espírito Santo não surgiu, nem começou a agir no Pentecostes. Ele é Deus, portanto, é eterno e atuando no mundo desde o princípio. Aquilo que os profetas do Antigo Testamento disseram que ia acontecer, Cristo prometeu como uma expectativa imediata. Poucas horas antes de morrer, a sós com seus apóstolos no cenáculo, ele falou do “Consolador”, o “Espírito da verdade” que viria e assumiria o seu lugar. O Novo Testamento nos ensina que quando confiamos em Jesus Cristo e assumimos um compromisso com ele, o Espírito Santo vem habitar em nós. Ele é enviado por Deus “aos nossos corações”. Ele faz do nosso corpo o seu templo. É pelo Espírito de Cristo que podemos ser transformados à imagem de Cristo, enquanto olhamos fixamente para ele. Temos que fazer a nossa parte – isso inclui arrependimento, fé e disciplina – mas essencialmente, a santificação é obra do Espírito Santo. A igreja é o Corpo de Cristo. Cada cristão é um membro ou órgão do corpo, e Cristo é a cabeça, controlando as atividades do corpo. Nem todos os órgãos têm a mesma função, mas todos são necessários para que o corpo seja plenamente saudável e útil. Stott conclui este capítulo dizendo que certamente a história da igreja relata muitos casos manchados pela estupidez e pelo egoísmo, ou até mesmo por uma desobediência aberta aos ensinamentos de Cristo. Atualmente, algumas igrejas parecem estar mortas ou morrendo, em vez de cheias de vida; outras estão divididas em facções e destruídas pela falta de amor. Mesmo as divisões externas ou denominacionais não podem destruir sua unidade espiritual interior. Temos que admitir que nem todos os que professam a fé e se autodenominam cristãos demonstram amor de Jesus Cristo em suas vidas. No entanto, o lugar do cristão é na igreja local, por mais imperfeita que possa ser. É ali que ele deve buscar a nova qualidade de relacionamento que Cristo dá a seu povo, e partilhar da comunhão na adoração e testemunho da igreja.
A Parte Quatro de “Cristianismo Básico”, intitulada “A Resposta do Homem” é composta pelos restantes dos capítulos: 9, 10 e 11. O capítulo 9, “Calculando o Custo” começa com uma pergunta “O que devo fazer para que seja salvo?” Certamente devemos fazer alguma coisa. Ser cristão não é simplesmente concordar com uma série de proposições, por mais verdadeira que sejam. O fato de alguém crer na divindade de Cristo e na salvação e reconhecer que é um pecador necessitado de salvação também não o torna um cristão. Temos que assumir um compromisso pessoal com Jesus Cristo e aceitá-lo como nosso Salvador e Senhor, sem restrições. Stott segue abordando as implicações práticas desse comportamento, como por exemplo, obediência. Jesus não apoiou aqueles que se candidatavam ao discipulado de forma impensada, e mandou de volta aqueles que vinham cheios de entusiasmo irresponsável. O cenário cristão é cheio de ruínas de torres abandonadas ou construídas pela metade – as ruínas do que começaram a construir e não conseguiram concluir a construção. Milhares de pessoas continuam ignorando a advertência de Cristo e passam a segui-lo sem antes parar para refletir sobre o custo dessa empreitada. Conseqüentemente, temos hoje um grande número de “cristãos nominais”. Jesus disse “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á”. Jesus exigiu que seus seguidores fossem fies a ele, convidou-os a aprenderem dele, serem obedientes à sua palavra e a se identificarem com a sua causa. Contudo ninguém pode seguir a Jesus sem uma atitude de renúncia. Seguir a Cristo é deixar todas as outras coisas. Na época de Jesus, isso significava literalmente abandonar o lar e o trabalho. Entretanto, na prática, isso não significa que a maioria dos cristãos deve deixar sua casa e seu trabalho. Antes implica um entrega interior, uma recusa em permitir que a família ou alguma ambição ocupe o primeiro lugar em nossas vidas. Primeiramente devemos renunciar ao pecado, isto é, uma atitude de arrependimento, que inclui uma mudança clara de pensamento, palavras, atos e hábitos considerados errados. Precisamos também renunciar aos nossos desejos egoístas, que se encontram na raiz de todos os nossos pecados. Seguir a Cristo é entregar a ele os direitos sobre a nossa própria vida. Necessitamos também tomar a nossa cruz, crucificando o nosso próprio eu: o cristão deve morrer diariamente, renunciando à soberania de sua própria vontade. É preciso também perder a nossa vida, ou seja, submeter a nossa vontade a vontade de Cristo. Fazer de Cristo o Senhor é colocar todas as áreas de nossa vida pública e privada sobre seu controle. Certamente ser cristão tem um custo, mas o custo por não ser é maior – significa perder a si mesmo.
O capítulo 10, “Tomando uma Decisão”, ressalta que seja qual for a nossa formação ou herança familiar, todo adulto responsável precisa tomar uma decisão a favor ou contra Cristo. Não podemos permanecer neutros ou indiferentes, nem deixar que outra pessoa decida por nós. Devemos decidir por nós mesmos. Cristo diz “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”. Ap. 3.20 (Ilustração: Holman Hunt, a Luz do Mundo, 1853). Cristo pode vestir-nos com a sua justiça, tocar nossos olhos para que possamos enxergar, e nos tornar ricos com suas riquezas espirituais. Sem ele, e enquanto não abrirmos a porta e convidá-los a entrar, somos miseráveis, cegos e nus. Mas por que Jesus Cristo quer entrar? Ele quer entrar para ser nosso Salvador e Senhor. Stott comenta que a decisão é um ato definitivo, individual, único, deliberado, urgente e indispensável.
Capítulo 11, “Sendo um Cristão”, é dedicado àqueles que abriram a porta de suas vidas a Jesus Cristo, assumiram um compromisso com ele e estão começando sua vida cristã. Torna-se um cristão, porém, é uma coisa; ser cristão é outra. Este capítulo trata das implicações de ser um cristão. Existem privilégios e responsabilidades. A pessoa que nasceu de novo desfruta de um privilégio incomparável – seu relacionamento com Deus, caracterizado pela intimidade, firmeza e segurança. A grande responsabilidade cristã é o crescimento. O propósito de Deus é que os cristãos “recém-nascidos em Cristo” se tornem “maduros em Cristo”. O cristão deve crescer em duas áreas principais. A primeira diz respeito ao entendimento e a segunda à santidade. É necessário que se leia e estude a Bíblia e que se leiam bons livros para haver crescimento intelectual. Devemos também crescer em santidade permitindo que Espírito Santo nos oriente. Existem três caminhos para o crescimento espiritual e que ao mesmo tempo são as principais responsabilidades do filho de Deus: dedicar tempo para Deus através de leitura da Bíblia e orações, procurando aplicar o ensino das passagens no seu dia-a-dia; participar de uma igreja local, adorando a Deus, desfrutando da comunhão dos irmãos e compartilhando o seu testemunho; e desenvolver um interesse profundo pelo semelhante e evangelizar, espalhando as boas novas de Jesus Cristo pelo mundo. O cristão maduro, que tem as Escrituras como guia, buscará viver simultaneamente “em Cristo” e “no mundo”. É para essa vida de discipulado que Cristo nos chama. Ele morreu e ressuscitou para nos dar uma nova vida. Ele nos deu o seu Espírito para podermos vivê-la no mundo. Ele agora está nos chamando para segui-lo e entregarmos nossa vida ao seu serviço.
BIBLIOGRAFIA
STOTT, John. Cristianismo Básico. Viçosa, MG: Ultimato, 2007.